Dos filmes de Woody Allen que assisti, o que mais me marcou foi Hannah e suas irmãs. Assisti a ele, pela primeira vez, em 2007. Conhecia pouquíssimo a carreira de Allen nessa época, e foi justamente este o filme que me fez buscar outros trabalhos do roteirista-ator-diretor. Dificilmente qualquer outro filme que ele tenha feito ou venha a fazer superará Hannah e suas irmãs. Essa afirmação, aliás, foi confirmada quando revi a película.Para quem não conhece, o enredo desse filme não tem uma trama fixa. São diversos personagens, todos de alguma forma ligados a Hannah (ex-marido, marido, irmãs, pais), com dramas e dilemas pessoais tão diversos como hipocondria, infidelidade, ateísmo, complexo de inferioridade, esterilidade, obessão... e a lista vai. Meu personagem preferido, com certeza, é Mickey, o adorável neurótico interpretado por Woody Allen que transforma sua vida após uma suspeita de tumor no cérebro. Depois de narrar sua incessante busca por Deus, que perpassa o judaísmo, o catolicismo, o movimento hare krishna e uma desistente tentativa de suicídio, ele muda a maneira de encarar os fatos ao passar, por acaso, em frente ao cinema e decidir entrar. Eis o que conta esse anti-herói:
- Eu fui a um cinema. Não sabia o que estava passando. Só precisava de um momento para pensar, ser lógico e colocar o mundo em perspectiva racional. Entrei e me sentei. O filme era um que tinha visto muitas vezes em minha vida, desde que era criança, e sempre adorei. Estava assistindo e comecei a me envolver com o filme. E comecei a perceber: "Como você pode pensar em se matar? Não é estúpido? Veja todas as pessoas na tela. Elas são engraçadas. E se o pior for verdade? Não existe Deus, você vive apenas uma vez. É isso. Você não quer ser parte da experiência? Não é tão chato assim". E pensei: "Deveria parar de arruinar minha vida... procurando por respostas... e apenas aproveitá-la enquanto durar". E depois, quem sabe? Talvez exista algo. Ninguém sabe realmente. Eu sei, "talvez" é uma vareta bastante fina para que possa pendurar sua vida... mas é o melhor que temos. E eu comecei a relaxar... e a me divertir de verdade.
Nesse momento, meus olhos encheram de lágrimas. Enquanto Mickey conta a história à amiga, um flashback na tela remonta o que havia acontecido: perambulando pelas ruas de Nova York, ele entra em um cinema. Algumas cenas do filme que motivou sua vida são mostradas. O diabo a quatro, dos Irmãos Marx, foi a resposta-chave para as questões sobre sua existência.
Não sei exatamente porque chorei. Talvez da primeira vez que assisti não tenha absorvido tão bem essa simples poesia pelo viver a vida. Ou talvez não tenha percebido que a forma como Mickey conseguiu a resposta que procurava (ou ao menos parte dela) é bastante semelhante à maneira como tenho me esquivado de pensamentos ruins. Uma válvula de escape, uma armadura contra a mágoa. Um botão de desliga do mundo exterior para a interiorização das emoções: ocultá-las sob a pele e continuar vivendo.
Existe muito sobre nós que preferimos esconder... de nós mesmos. Basta um simples momento, uma mera cena de filme, para que reflitamos sobre o que somos. Woody Allen viverá no meu coração. Para sempre.